nota de falecimento

Imagem de analog, dark, and film
Dos falecimentos mais exorbitantes, o de tua alma foi o de maior comoção. Desgasta e surrada dentro de um corpo tão jovem simplesmente não detinha do direito de ir-se tão cedo; ora eu não ter a devida moral para tratar do assunto partir, mas ainda assim a questiono. Talvez realmente detivesse do direito de ir, já que ninguém possa obter o direito de impedí-la - quem serei eu para impedi-la? A dor do parto é agonizante e, agora, nada libertadora. Creio não ser merecedora de tal dor já que, em alguma circunstância de minha trajetória deixei que a mesma fosse sem ao menos perceber sua partida, que direito terei de chorar pela mesma? Nunca dado o aval para aflorar e se redigir diante a vida, sempre escondida e obsoleta; triste morte arrebatadora, não houve quem a percebera e ainda menos quem a chorasse - não houve quem a conhecesse, sempre ermo mas nunca só. Pior agora que restou um corpo a vagar pela noite entre taças e tragos, sentindo o constante gosto da realidade já que agora não há mais escapatória, não há refúgio; há apenas um corpo oco à espera de sua falência total - de que servem os corpos ocos? Ocos corpos fazem a noite, sempre desgasta, sempre repleta de cansaço e agonia; todos num eterno labirinto sem fim atrás de algo que não se sabe; há um caos constante em minha mente, uma guerra perturbadora que não me permite ir e ainda menos ficar; prende e agoniza, fere à todos em minha volta - faz sofrer aquele que se aproxima - morre e faz morrer. És estúpida ao ponto de não ser capaz de obter a mínima decência ao escolher de palavras - és incapaz de escolhe-las, não há explicacões nem faz com que a tenhas; é tudo um grande absurdo, um limbo inconstante que segue por um túnel que luz já não possui. Como um beco sem saída isto se tornou; ora eu, oco corpo, oca mente - tornei ao falecimento da desfalecida, aquela que se foi sem ir e que agora já não se sabe mais. Está tudo bem agora, como dito anteriormente, um dia os pinceis hei de perder a cor assim como a dança o seu compasso e o verso sua poesia, o trem sairá dos trilhos e o caminho se apagará e, a partir daí, tu nada mais serás capaz de fazer - é assim que deve ser .

5 comentários:

  1. Eu recebi esse texto em um momento certo, eu adorei suas palavras, escreve tão bem que chega a ser inacreditável. Esse assunto mexe tanto comigo que você não tem noção... Eu adorei ler!
    https://flores-almond.blogspot.com.br/

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  2. Nunca sei exatamente o que comentar sobre seus textos, às vezes fico perdida em meio as palavras e não sei transmiti-las por meio dos comentários. Eu sou extremamente apaixonada pelas coisas que você escreve, minha vontade é imprimi-las e colar os papeis pelas paredes do meu quarto, onde eu posso ler e reler todos os dias.

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  3. Esse é o meu favorito até agora. Na verdade, sou obcecada por cada parágrafo dele e permaneço lendo e relendo várias vezes até que a essência do sentimento imposto emerja dentro de mim.
    Luce, certa vez minha mãe elogiou um de meus escritos e aquilo me fez imensamente feliz, mais feliz do que sou capaz de acreditar merecer, portanto, gostaria de passar adiante as palavras dela.
    "Você é um livro velho, as páginas (por conta do tempo) são frágeis e é preciso delicadeza para manuseá-las, assim como é preciso estar fragilizado para as interpretar".
    Ela deve ter dito isso de uma forma bem mais casual, mas na minha mente antiquada foi assim que elas soaram...

    http://anoitecei.blogspot.com.br/

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  4. As palavras foram muito bem colocadas, eu adorei cada pedaço. Existem pessoas que estão realmente assim. Amei.

    Eleutheromania

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  5. Confesso que tive que desatar alguns nós na minha cabeça para finalmente chegar à compreensão total do texto, mas acho que você disse tudo. A maioria das pessoas provavelmente está oca e nem se dá conta. A alma morreu e não há instinto de vivência dentro delas, apenas sobrevivência.

    n-e-a-p-o-l-i-t-a-n.blogspot.com

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