bilhete esquecido


Dada a cadência com a qual vos torno à tentar balbuciar tais palavras, creio que difícil haverá compreensão, já que pouco entendes sobre o que há além do que teus olhos podem ver e do falso prazer que sentes ao destruir de outrem. Mas, ainda assim, insisto na insana procura de fazer-lhe entender minhas palavras mal-ditas na inexistente esperança de que assim o faça melhor - mas não o faz. Porque não há como fazê-lo! A profundidade da dor que em mim habita supera a superficial capacidade de prosseguir sem transparecer o que é sentido.
Mas ora, se todas estas são verdades, por que persistir?

nota de falecimento

Imagem de analog, dark, and film
Dos falecimentos mais exorbitantes, o de tua alma foi o de maior comoção. Desgasta e surrada dentro de um corpo tão jovem simplesmente não detinha do direito de ir-se tão cedo; ora eu não ter a devida moral para tratar do assunto partir, mas ainda assim a questiono. Talvez realmente detivesse do direito de ir, já que ninguém possa obter o direito de impedí-la - quem serei eu para impedi-la? A dor do parto é agonizante e, agora, nada libertadora. Creio não ser merecedora de tal dor já que, em alguma circunstância de minha trajetória deixei que a mesma fosse sem ao menos perceber sua partida, que direito terei de chorar pela mesma? Nunca dado o aval para aflorar e se redigir diante a vida, sempre escondida e obsoleta; triste morte arrebatadora, não houve quem a percebera e ainda menos quem a chorasse - não houve quem a conhecesse, sempre ermo mas nunca só. Pior agora que restou um corpo a vagar pela noite entre taças e tragos, sentindo o constante gosto da realidade já que agora não há mais escapatória, não há refúgio; há apenas um corpo oco à espera de sua falência total - de que servem os corpos ocos? Ocos corpos fazem a noite, sempre desgasta, sempre repleta de cansaço e agonia; todos num eterno labirinto sem fim atrás de algo que não se sabe; há um caos constante em minha mente, uma guerra perturbadora que não me permite ir e ainda menos ficar; prende e agoniza, fere à todos em minha volta - faz sofrer aquele que se aproxima - morre e faz morrer. És estúpida ao ponto de não ser capaz de obter a mínima decência ao escolher de palavras - és incapaz de escolhe-las, não há explicacões nem faz com que a tenhas; é tudo um grande absurdo, um limbo inconstante que segue por um túnel que luz já não possui. Como um beco sem saída isto se tornou; ora eu, oco corpo, oca mente - tornei ao falecimento da desfalecida, aquela que se foi sem ir e que agora já não se sabe mais. Está tudo bem agora, como dito anteriormente, um dia os pinceis hei de perder a cor assim como a dança o seu compasso e o verso sua poesia, o trem sairá dos trilhos e o caminho se apagará e, a partir daí, tu nada mais serás capaz de fazer - é assim que deve ser .